A PELE E A ARTE

A comunidade artística desde sempre se inspirou na pele.

Na música, na dança, na literatura, na escultura, na fotografia e sobretudo na pintura o corpo e o seu invólucro podem ser definidos como um complexo de possíveis.

A pele saudável e doente, a cada obra, é reinventada. Mas os possíveis são função da anatomia e fisiologia do corpo, mas sobretudo um desempenho da imaginação corporal que cria as condições de exercício da perceção e da ação.

Com o aparecimento da fotografia e, depois, da radiografia, passou-se para o domínio do microscópio. Assim, a imagem do corpo deslocou-se de uma dada conceção de erotismo como forma de representação sólida, atlética, para uma outra sustentada na projeção de uma dimensão de corpo interno, íntimo, desorganizado. Uma outra dimensão de interioridade da pele.

As pinturas inspiradas em imagens microscópicas da pele combinam o expressionismo abstrato com a Dermatologia. São formas de expressão pessoal de algo invisível, uma simbiose de formas e conteúdos reinterpretadas para criar um novo design.

A verdade da pintura e outras formas de arte como a literatura e a música está na sua fonte inspiradora, no artista e simultaneamente no íntimo do espectador que resvala para o interior da obra artística.

A pintura põe em evidencia essa situação maravilhosa que é a nossa existência (Tàpies).

Sendo o objetivo final de uma obra sempre indeterminado, cada doente, cada pele, cada “obra” será um caso único na estreita linha de fronteira entre o possível e o impossível e o visível e o invisível.

A “noção de forma interior”, na arte dermatológica centra-se na importância de reencontrar a identidade profunda entre a natureza exterior e interior de cada paciente.

A incitação à melhoria da qualidade e beleza da pele como órgão permite frequentemente devolver ao doente a sua dignidade e liberdade.

Cada obra de um artista deve ser entendida como um caminho, um caminho que nas doenças de pele envolve a própria experiência (sensível) do Dermatologista indissociavelmente por ele testemunhada.

O Dermatologista procura um equilíbrio perdido sabendo que a própria obra é uma forma transitória como um velho alquimista que detém alguns segredos da transformação da matéria.